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Segunda-feira, 06 de Setembro de 2021

Greenwashing? 43% das empresas do Ibov não checaram dados ESG em 2020

Por Jenne Andrade e Luana Meneghetti

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Há alguns anos, em especial nas décadas de 1950 a 1990, o consumo era sinônimo de status e por isso pouco importava para os consumidores os impactos negativos gerados pelas empresas para entregar os respectivos produtos. Nos anos de 1980 e 1990, os famosos comerciais de cowboys que fumavam os cigarros Marlboro inundaram as telas de TV do mundo todo. Hoje, a promoção de uma peça publicitária como essa é incabível. A própria Philip Morris, empresa dona da marca tabagista, tem incentivado os clientes a trocarem os cigarros tradicionais por opções menos danosas, como o tabaco aquecido.

“A nossa mensagem é clara: se você não fuma, não comece. Se você fuma, a melhor opção é parar. Mas se você quiser optar por continuar, que tenha o direito ao acesso a alternativas menos nocivas”, afirma Guatimozin Santos, gerente de Assuntos Corporativos da Philip Morris Brasil. “Para que qualquer empresa de tabaco possa falar genuinamente de sustentabilidade e ESG, o objetivo não pode ser outro a não ser encarar, de forma transparente, todas as questões relacionadas ao consumo de cigarros.”

A decisão da gigante do tabaco não é apenas moral, mas estratégica: é preciso adequar a empresa às exigências de mercado, cada vez mais rígidas em relação aos aspectos de sustentabilidade. Apesar de não ser um tema novo, o impacto ambiental e social, assim como as práticas de governança das companhias (ESG, na sigla em inglês), nunca foram tão questionados pelos investidores – principalmente no Brasil.

Por aqui, o tema começou a ganhar tração no último ano. A pandemia do novo coronavírus serviu como um catalisador para a discussão no País e já suscita mudanças de comportamento. “O Brasil ainda é bastante insuficiente quando o assunto é filantropia – o brasileiro doa sete vezes menos do que os americanos e três vezes menos do que os britânicos. Durante a crise da covid-19, no entanto, tivemos um recorde de doações”, diz Marcella Ungaretti, especialista ESG da XP, em relatório. Na visão da corretora, a empresa do futuro é aquela que cuida de todos, não somente dos seus acionistas.

Em meio à nova realidade, as companhias listadas correm para apresentar parâmetros ESG em seus relatórios. Entretanto, ainda existe dificuldade na apresentação e interpretação desses dados, uma vez que ainda não há um padrão na apresentação de métricas ambientais, sociais e de governança. Esse fator abre espaço para o ‘greenwashing’, quando uma empresa apenas tenta se passar por sustentável, mas sem estar verdadeiramente comprometida com as mudanças.

Pintando de verde

Para auxiliar os investidores a separar o ‘joio do trigo’, a PwC Brasil, em parceria com o Instituto Brasileiro dos Auditores Independentes (Ibracon), produziram a pesquisa “Divulgações de ESG no Ibovespa”, enviada em primeira mão ao E-Investidor. O estudo analisou relatórios de sustentabilidade divulgados em 2020 pelas companhias que fazem parte do Ibovespa. No caso das empresas que não divulgaram as métricas até a coleta dos dados, foram usados os relatórios de 2019, correspondentes a 19% da amostra.

Das 81 companhias listadas na bolsa de valores, 78 foram analisadas. Destas, 67 emitiram esse tipo de relatório, mas somente 30% desses documentos foram verificados por auditorias independentes. Outros 27% foram assegurados por assessorias ou por outros frameworks. A maioria (43%) não foi assegurado ou verificado por nenhuma instituição.

“Os números sugerem que as empresas estão inclinadas a divulgar dados relacionados à sustentabilidade, mas ainda não estão comprometidas com assegurar as informações ao público por meio de uma verificação externa da qualidade e confiabilidade dos seus relatórios”, afirmou a PwC, na pesquisa.

De acordo com Fabio Alperowitch, gestor da Fama Investimentos e um dos pioneiros em ESG no País, a não verificação acontece não só nas empresas brasileiras, mas no exterior, e deixa os relatórios bastante vulneráveis. “É lamentável”, afirma. “Grande parte dos indicadores não são padronizados. Ainda que existissem auditorias, cada companhia mede as coisas de um jeito e os números são pouco comparáveis. Isso é um grande problema”, diz.

Para o especialista, há muito mais empresas fazendo greenwashing do que realmente buscando sustentabilidade. E isso nem sempre acontece de forma intencional, ou seja, quando deliberadamente uma companhia tenta construir uma roupagem sustentável para ser vendida aos investidores.

“Tem aquelas empresas que nem sabem o que é mais material e relevante (em sustentabilidade). Então elas atacam questões que não são tão relevantes e, como o público em geral ainda é despreparado, acabam entendendo que a marca é sustentável, quando não é”, afirma Alperowitch. “Um exemplo é uma empresa de moda que lança uma coleção de tênis feito com plástico resgatado do oceano e doa R$ 1 milhão para escolas carentes. Claro que são ações legais, mas isso não é sustentabilidade.”

De forma prática, a ação sustentável está em identificar quais são os fatores de maior impacto social, ambiental e de governança para cada negócio (chamados temas materiais) e atacar esses pontos.

“Cada player deve endereçar seus próprios problemas. Uma mineradora precisa tratar de segurança do trabalho. Uma empresa de moda precisa tratar da auditoria de fornecedores para prevenir trabalho análogo à escravidão e infantil. Um banco precisa tratar de sigilo de dados e assim sucessivamente”, explica Alperowitch.

Essa também é visão de Ricardo França, especialista da Ágora Investimentos. “O ESG é uma série de fatores, como uma governança mais clara, transparência, etc.”, afirma. “Ele tem que ser genuíno, não apenas práticas para jogar para a plateia e com pouco efeito, só pensando em marketing”, diz. “Também acredito em um ESG construtivo entre as partes. Não adianta apenas excluir as empresas que não são sustentáveis, temos que dar a chance de elas aderirem às melhores práticas.”

Ambiente, diversidade e inclusão

Nos relatórios de sustentabilidade também estão presentes os chamados ‘temas materiais’, isto é, tópicos relevantes em relação a questões ambientais, sociais e de governança. Em outras palavras, são as prioridades ESG de cada empresa ou fatores de sustentabilidade cruciais a serem melhorados no negócio.

O estudo da PwC revela que 91% dos relatórios citam ‘Condições de Trabalho e Capacitação’ como temas materiais. ‘Ética e Integridade’ (anticorrupção) também aparecem com frequência (84%), assim como a ‘Satisfação dos Clientes’ (70%).

O tópico de ‘Diversidade e Inclusão’, porém, tem um peso menor e só aparece entre as prioridades para 55% das empresas do Ibovespa, mesmo sendo uma demanda histórica no País. Dentro desse aspecto, a preocupação com a diversidade racial e LGBTQIA+ aparece em segundo plano. Menos da metade divulga métricas relacionadas à etnia (46%) e apenas 10% prestam informações sobre orientação sexual dos funcionários.

“A pauta de diversidade avançou, mas ainda existe muito espaço para essas empresas ampliarem suas divulgações no quesito PCD, raça e LGBTQI+. O resultado está um pouco aquém do esperado e pode ser melhorado”, diz Mauricio Colombari, sócio da PwC Brasil.

Chama a atenção que a categoria de “riscos epidêmicos” só é citada em 4% dos relatórios analisados, mesmo que mais de 80% tenham sido divulgados já em 2020, durante a pandemia do coronavírus. As ameaças de ordem hidrológica também são registradas por uma minoria (13%). Hoje, a crise hídrica é vista com grande preocupação pelo mercado.

Em contrapartida, os riscos corporativos são os mais mencionados pelas empresas(69%). Segundo Alperowitch, apesar da estranheza inicial, deve-se considerar as particularidades de cada negócio. “Claro que a crise hídrica e a pandemia são problemas, mas isso é algo macro”, afirma. “Existe uma compreensão errada de que sustentabilidade é igual para todo mundo. As empresas têm que saber quais são suas materialidades específicas.”

Já para a PwC, é esperada uma evolução na postura das companhias. “Com o avanço da agenda ESG, espera-se que as empresas passem a incorporar os riscos relacionados às questões socioambientais e de governança no processo normal de gestão de riscos”, afirma Colombari.

Transparência

De fato, um dos pontos mais sensíveis em relação ao ESG é a transparência. A falta de padronização na apresentação dos dados prejudica a compreensão dos investidores e a comparação entre as companhias. Esse desafio é apontado também por Ungaretti, analista ESG da XP. Segundo a especialista, em 2011, o S&P divulgou que aproximadamente 20% das empresas disponibilizavam os relatórios de sustentabilidade.

“Hoje esse percentual já ultrapassa os 90%. Ter essas empresas voluntariamente divulgando essas informações é muito relevante. Quando olhamos para as bolsas de valores, apenas 24% delas têm como obrigatória a divulgação de relatórios”, diz.

A inexistência de uma regulamentação que torna obrigatória a divulgação dessas informações dificulta a transparência. Segundo Ungaretti, atualmente existem organizações que agem no sentido de tentar padronizar essas informações, como o Global Reporting Initiative (GRI) - utilizado por 97% dos relatórios analisados pelo estudo da PwC e Ibracon. No entanto, usar o padrão GRI ainda é opcional. “Ainda temos um longo caminho pela frente para que todas as empresas sigam um único padrão em termos de divulgação”, afirma Ungaretti.

Mas a transparência na divulgação da agenda ESG das empresas já é alvo de estudos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em audiência pública (SDM nº 09/20), a autarquia propôs tornar obrigatória a divulgação das práticas ESG pelas empresas de capital aberto, adotando o “pratique ou explique”. O Banco Central também realizou duas consultas públicas neste ano para estabelecer requisitos de divulgação da agenda ESG.

Além da padronização, o mercado também pede por uma maior periodicidade na divulgação dos relatórios ESG, atualmente anuais. A proposta é que essas informações sejam divulgadas com a mesma frequência dos reports financeiros. “O feedback que recebemos dos investidores é que a recorrência dessas informações é muito espaçada, atrapalhando o mercado no acompanhamento da evolução da agenda dessas companhias”, diz Ungaretti, da XP.

ESG em números

O movimento ESG tem sido impulsionado por três fatores: demanda dos investidores e consumidores, principalmente os da geração Y e Z, que são mais conscientes e comprometidos com o meio ambiente; pela regulamentação que já estudada pela CVM e que promete fomentar a agenda no País; e pelo retorno financeiro que essas companhias recebem ao adotarem a sustentabilidade nos negócios.

Do ponto de vista do retorno, um estudo realizado pelo PRI (Principles for Responsible Investment, na sigla em inglês) com duas mil publicações sobre o tema, concluiu que 63% dos artigos correlacionaram a adoção do ESG com melhores retornos. O PRI funciona como uma rede de investidores apoiada pela ONU que trabalha para promover o investimento sustentável.

O interesse de investidores por portfólios alinhados ao ESG é provado com o salto no número de empresas listadas que seguem os  códigos de sustentabilidade do PRI.  “Desde 2016, o número de companhias do PRI mais do que dobrou, ultrapassando a marca de três mil membros e somando mais de US$ 100 trilhões em ativos sob gestão, número 15 vezes maior do que em 2006”, informa o relatório da XP. O Brasil ainda representa uma parcela pequena, de apenas 2% do total de signatários, mas aumenta a cada ano: atualmente fazem parte do PRI 62 membros, crescimento de 33% em relação a 2019 e 2018.

Já pelo olhar da renda variável, a bolsa norte-americana (NYSE) subiu 295% desde 2009, enquanto o FTSE4Good US Index, índice que contém as empresas melhores posicionadas em termos ESG, valorizou 345%. No Brasil, desde 2006, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) ultrapassou em 67 pontos percentuais o Ibovespa, uma alta de 269%.

O indicador brasileiro de sustentabilidade também passou por reformulações para dar mais transparência para a evolução do ESG das companhias. Uma das mudanças prevê  que as empresas recebam notas em relação à sustentabilidade, que devem gerar um ranking, além de passarem por um questionário setorizado.

“O questionário se aprofunda em questões mais relevantes, dependendo do setor de atuação de cada empresa. Além do aprofundamento setorial, há perguntas comuns para todas, como governança e diversidade e inclusão”, afirma César Sanches, superintendente de Sustentabilidade da B3.

Fonte: O Estadão - 06/09/2021
 

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