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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Vasarhelyi defende uso de dados analíticos na auditoria independente

Por Roberta Mello

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Húngaro com alma carioca, Miklos Vasaherlyi é uma das maiores autoridades quando o assunto é uso de novas tecnologias na área da auditoria e contabilidade. Este mês, esteve no Brasil para participar da 8ª Conferência de Contabilidade e Auditoria Independente a convite do Instituto dos Auditores Independentes (Ibracon) para falar sobre futuro da auditoria.
 
Para Vasarhelyi, o auditor deve, obrigatoriamente, habilitar-se para lançar mão de dados analíticos, inclusive dados exógenos aos balanços e outras informações financeiras da empresa, para tornar o trabalho mais relevante.
 
"Atualmente, com melhores mecanismos de métodos analíticos você pode fazer muito melhor seleção do que você examinou e do que não examinou", destacou o especialista. Criador do método de auditoria contínua, Vasarhelyi anuncia um novo projeto igualmente ambicioso.
 
A ideia é trabalhar em um modelo experimental com auditor, cliente e regulador e, "se possível, queremos que o regulador dê carta branca inclusive para violar as regras de auditoria e fazer diferente para testar". Seu desejo é implantar o modelo no Brasil e, do alto de sua experiência, ele garante que vai dar certo.
 
Vasarhelyi tem o desejo de vir mais vezes ao Brasil por motivos óbvios. Criado no Rio de Janeiro, graduou-se em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mas mudou-se para os Estados Unidos e lá trilhou toda a sua carreira acadêmica.
 
JC Contabilidade - Qual o diferencial do método de auditoria contínua, criado por você?

Miklos Vasaherlyi - Em vez de uma vez ao ano o auditor chegar e examinar, é criado um sistema de monitoramento e colocado um overlay (sobreposição) - capaz de monitorar as operações da empresa e chamar atenção quando existem variações.
 
Essa é a ideia fundamental. Finalmente, nos últimos dois ou três anos, a área de auditoria contínua está começando a vingar. Por exemplo, a PwC tem uma prática de consultoria totalmente dirigida a ajudar auditores internos a criarem auditoria contínua.
 
Contabilidade - A empresa tem que contar com um software capaz de fazer a auditoria contínua dentro do seu sistema?

Vasaherlyi - Exato. As auditorias externas ainda não adotaram o método. Eu, no instituto americano de contadores tenho dito sempre que temos de criar um produto de monitoramento e auditoria, por que a auditoria temporária no momento atual, de economia de tempo real, não tem nexo. Fazer auditoria uma vez ao ano não faz sentido quando as reações devem ser em milésimos de segundo. A gente tem que mudar as tecnologias. E, finalmente, estão começando a pensar nesse assunto.
 
Contabilidade - O método de auditoria contínua está, desde a sua criação, amparado no uso de tecnologia. Quais os principais impactos que a tecnologia teve e está tendo até hoje sobre o serviço de auditoria independente?

Vasaherlyi - Até agora, em auditoria independente, nada. Agora tem algumas firmas que estão fazendo auditoria interna que tem alguns processos de auditoria contínua. Esse é o desafio de hoje em dia.
 
Em uma economia de tempo real, qual o propósito de ter uma auditoria a cada ano? Isso que tem que mudar na auditoria. O que está evoluindo mais rápido é que finalmente os profissionais estão preocupados com Big Data e usando dados analíticos.

Contabilidade - Você é um dos defensores do uso desses dados analíticos. Como indica que as firmas de auditoria se adequem a essas novas tecnologias?

Vasaherlyi - A primeira etapa é o monitoramento. Você não pode fazer auditoria contínua sem monitoramento contínuo. E a grande diferença no monitoramento contínuo é que a obrigação é mais da administração operacional da empresa. Auditoria contínua não é feita tão detalhadamente, mas tem uma visão mais ampla e sistêmica do que está se passando na empresa.
 
Atualmente, com melhores mecanismos de métodos analíticos você pode fazer muito melhor seleção do que você examinou e do que não examinou. Por volta de 80% das transações no mercado de ações são realizadas de forma automática.
 
Outro 10%, mais ou menos, são fruto de estudo, análise e tomada de decisão. São levados em conta variação de preço, variação de volume e o que os competidores estão fazendo. Outra coisa que os analistas fazem é escanear, capturar notícias sobre aquela empresa e sobre o competidor dele também.
 
Contabilidade - Inclusive utilizando os chamados dados externos, que não estão nos balanços das empresas?

Vasaherlyi - Este é o passo seguinte. Aconteceu nos últimos cinco anos que uma família de dados exógenos está se criando e já tenho notícia que estes automated tradings systems (softwares capazes de agir como um investidor e negociar no mercado financeiro) estão usando também a análise de notícias, principalmente as más, e das redes sociais.
 
Esses dados externos podem ser também outras coisas menos conhecidas, como, por exemplo, dados de temperatura e pressão. Uma companhia que estudamos vende produtos de construção civil ao consumidor e tem aproximadamente 2 mil lojas distribuídas pelos Estados Unidos.
 
Nós queríamos fazer uma auditoria preditiva dessa companhia e, para isso, criamos modelos que preveem a venda por loja e comparamos a previsão com o que a loja declarou. Se desse um resultado muito distante, era um proxy de risco, ou seja, ou aquilo que se achava que seria vendido não foi vendido ou a nossa previsão estava errada.
 
Usamos dados microeconômicos para melhorar essa previsão e agora estamos melhorando o serviço usando também previsão de tempo. Por sinal, dados de meteorologia são imensos, são o super Big Data. E isso tudo funcionou muito bem. Estamos totalmente convencidos de que dados exógenos irão eventualmente ser muito importantes.
 
Contabilidade - As firmas de auditoria estão investindo em tecnologias de serviços cognitivos como o Watson, da IBM, cuja programação cruza dados na tentativa de imitar a mente humana. Você acredita que seja o melhor investimento em inteligência artificial para a área de auditoria?

Vasaherlyi - Todas as quatro grandes firmas de auditoria (Big Four) estão usando tecnologias como o Watson. Eu não acho isso um mau caminho, mas não é o melhor investimento.
 
O melhor investimento é um instrumento de auxílio imediato ao trabalho do auditor e mais do que tudo criar um arquivo de opiniões do auditor baseados em muitas auditorias. Eu aposto em tecnologias como o Siri, da Apple. Muito se fala em blockchain também, mas essa é uma tecnologia de banco de dados.
 
Contabilidade - Mas o blockchain promete mudar a forma como iremos lidar com os dados e informações empresariais.

Vasaherlyi - Sim, se costuma misturar blockchain com bitcoin, mas este último é só um aplicativo. Tem muitos outros aplicativos talvez mais interessantes do que cybercoins em cima de blockchain. Blockchain vai ser uma tecnologia importante por que não tem uma nova tecnologia de banco de dados há 30 anos e uma das coisas que blockchain promove é a partilha de dados entre duas organizações diferentes.
 
Você e seu cliente podem entrar em blockchain. O Banco Mundial está pensando em usar blockchain para criar maior transparência em países em desenvolvimento.
 
Ele vai ter muitas utilizações e traz uma mudança cultural, por que o paradigma de hoje é proteger seus dados, bota dentro do seu banco de dados e quando você vende um serviço paga alguém pela custódia. O paradigma do blockchain é distribuir seus dados e todo mundo tem acesso.
 
Contabilidade - E você estava falando no nal da palestra que está em busca de parceiros para implementar um projeto no Brasil. Que projeto é esse?
 
Vasaherlyi - Não tem nada amarrado mas a ideia é fazer um programa de experimentação ou teste. Estamos com um pouco de diculdade de convencer o PCAOB (Public Company Accounting Oversight Board) e o IASB (International Accounting Standards Board) a mudar as regras rapidamente e eu acho que tem que mudar muito rápido.
 
Então decidimos criar projetos de auditoria em que trabalhemos com auditor, cliente e regulador e, se possível, queremos que o regulador dê carta branca inclusive para violar as regras de auditoria e fazer diferente para testar.
 
Na Austrália, as coisas já começaram a caminhar bem, na Espanha estamos com conversas avançadas, ouvi falar que o pessoal do Canadá já está fazendo, e agora queremos fazer no Brasil, por que aqui não tem alguns dos empecilhos que temos nos Estados Unidos.
 
Eu também tenho outra razão pessoal, por que tenho apartamento e fui criado no Rio e gosto de vir ao Brasil em vez de estar viajando para qualquer outro lugar. Eu acho que vai acontecer. Faço isso há muito tempo e sei quando vai dar certo.


Fonte: Jornal do Comércio do RS - 27/06/2018

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