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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

Futuro da auditoria independente e seus principais desafios em debate

Por Roberta Mello

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Encontrar e reter talentos, estabelecer melhores honorários e manter-se atualizado em relações às novidades tecnológicas foram as principais dificuldades das Firmas de Auditoria Independente de Pequeno e Médio Porte (Fapmp), apontadas por especialistas no setor. Esses são os desafios apresentados durante a 8ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente, promovida pelo Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon).
 
Para o presidente da KPMG no Brasil e na América do Sul, Charles Krieck, o perfil do auditor hoje deve ser o de um profissional com conhecimentos em contabilidade, processos, tecnologias e exímia comunicação com o cliente. Segundo ele, a necessidade de as firmas se adequarem às novas demandas tecnológicas tem estimulado a contratação não somente de contadores, mas também de engenheiros, administradores e tecnólogos, o que torna as equipes mais diversas.
 
"As firmas de auditoria têm de enfrentar o desafio de buscar e treinar esses profissionais. Daí a necessidade, também, de mudar processos internos", ressalta Krieck. "Tem sido um desafio encontrar profissionais dispostos a entrar na profissão", constatou.
 
Para mudar esse quadro, diz Krieck, é preciso que os profissionais parem de se autossabotar. "A gente pode mudar um pouco o discurso, lembrando, por exemplo, que, embora trabalhemos muito, a atividade é gratificante." Krieck apontou a necessidade de as firmas e entidades de auditoria ficarem ainda mais próximas da academia, bem como do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e dos Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs), para "analisar como permitir o ingresso de especialistas não contadores nas firmas de auditoria, para que possam trazer suas expertises e depois terem a contabilidade como uma segunda profissão".
 
Conforme Krieck, estudo recente aponta que, de 100% do que os jovens aprendem, "apenas 10% provém de aulas presenciais, 20% resulta da troca de experiências e 70%, da experimentação". "Devemos adaptar nosso treinamento a essa realidade. Oferecer experiências de formação, com atividades mais práticas, jogos, dinâmicas interessantes", prevê o presidente da KPMG.
 
Atualmente, é possível coletar dados de forma remota, o que muda a forma como o auditor trabalha. "Ele pode iniciar a auditoria até sem estar no cliente", lembrou. "Outro desafio é o ensino a distância. A forma como vamos passar o conhecimento para as pessoas é cada vez menos presencial. Aliás, as companhias aéreas devem começar a ver como suas principais concorrentes não as rivais do mesmo nicho, mas os serviços de streaming", brincou.
 
"Também há uma carga violenta nas firmas de auditoria para capacitar para o idioma inglês." As expectativas das novas gerações em relação ao futuro profissional também mudaram muito, como Krieck fez questão de ressaltar.
 
"Os novos profissionais são desafiados, cada vez mais, a obter uma especialização em setores da indústria, e de ter a capacidade de atuar regional e internacionalmente", assinalou.
 
Prevenção a crimes cibernéticos ganha mais atenção entre auditores
 
Responsável pela palestra de abertura da conferência, Miklos Vasarhelyi deu o tom do encontro. A tecnologia pode ser muito positiva, mas também ter seus aspectos negativos. O painel "O impacto dos riscos cibernéticos no mundo corporativo" discutiu como investir em "cyber security", questão essencial em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e pelo trânsito de dados em ambientes virtuais.
 
A chefe adjunta do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central do Brasil, Paula Ester Leitão, iniciou o painel com uma exposição sobre a missão do Banco Central do Brasil, que consiste em "assegurar o poder de compra da moeda e um sistema financeiro sólido e eficiente".
 
Tendo em vista que o ambiente bancário brasileiro é marcado pelo uso intensivo da Tecnologia de Informação (TI) e por um alto grau de interconectividade, a prevenção aos riscos cibernéticos é fator preponderante na garantia de um ambiente estável para as instituições financeiras.
 
"A Resolução nº 4.658, emitida em 2018, tem como seus principais pontos, justamente, a política de segurança cibernética e a definição de requisitos para a contratação de serviços de processamento e armazenamento de dados e de computação em nuvem", disse a palestrante.
 
"A política de segurança cibernética prevê que a instituição deve ser capaz de prevenir, detectar e reduzir a vulnerabilidade a incidentes relacionados com o ambiente cibernético, além de estabelecer princípios e diretrizes para assegurar confidencialidade, integridade e disponibilidade dos dados e sistemas", informou.
 
Ainda segundo a painelista, a nova resolução enfatiza a importância de se promover uma cultura de disseminação de segurança cibernética, com programas de capacitação e avaliação periódica, prestação de informações a clientes sobre precauções e o compromisso da alta administração com esses objetivos.
 
"Uma entidade que opere no ciberespaço provavelmente experienciará um ou mais eventos de violação de segurança em algum momento, independentemente da eficiência dos controles de cibersegurança dessa entidade", destacou o professor de Sistemas de Informação Contábil na Rutgers Business School, Kevin Móffit.
 
"Organizações podem atingir uma segurança razoável, mas não existe segurança absoluta. É imprescindível estar preparado para detectar, responder, mitigar e se recuperar de ataques em um tempo hábil, com a menor ruptura possível em suas operações", acrescentou Móffit. O palestrante ressaltou que é essencial os auditores entenderem de Tecnologia da Informação.
 
"A auditoria de cibersegurança inclui um trabalho de gerenciamento de riscos, a verificação desse gerenciamento, a formação de uma opinião e o preparo do relatório profissional", adicionou Móffit.
 
"A administração é responsável por seu próprio programa de gerenciamento de riscos de segurança", destacou. Móffit também explicou as 10 principais ameaças à segurança em aplicativos Web, e apontou a tecnologia de blockchain como a mais segura que existe: "A rede distribuída verifica a integridade de cada transação. Além disso, transações não podem ser alteradas e são completamente transparentes", informou.
 
"É por isso que os reguladores, auditores e profissionais de segurança amam a tecnologia blockchain", brincou. Outra aliada contra os ataques cibernéticos é a Inteligência Artificial (AI).
 
Segundo Móffit, "os softwares tradicionais de detecção de malware identificam assinaturas específicas e passam a monitorá-las". Já as ferramentas de AI podem aprender as características do malware, e então as escaneiam em busca desses atributos.   Mercado e ambiente regulatório devem trabalhar em conjunto Para Camargo, ambiente regulatório tem que ser positivo
 
Trabalhar em conjunto com os reguladores pode ser vital à profissão. O sócio líder de auditoria da EY (Ernst Young), Claudio Camargo, discutiu a questão das tecnologias e da atuação conjunta aos órgãos reguladores.
 
Para Camargo, "ambiente regulatório sempre existiu se é mais rígido agora, devemos ver isso como algo positivo". Fazendo uma analogia entre a situação financeira e a de um paciente com graves problemas de saúde, o secretário de Controle Externo da Fazenda Nacional do Tribunal de Contas da União (TCU), Tiago Alves de Gouveia Lins Dutra, destacou que as demonstrações contábeis são um hemograma completo do ambiente de negócios e que os auditores têm o papel de fazer o diagnóstico.
 
"A auditoria tem o papel de garantir que essas doenças da administração pública sejam tratadas de forma mais tempestiva", reflete Dutra. O presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcelo Barbosa, lembrou que os auditores têm papel preponderante na criação de um bom ambiente de negócios.
 
"Recursos e investimentos vão aonde eles são bem recebidos", salientou o presidente da CVM. "Por isso, é fundamental mantermos nossas regras com o mínimo de redundâncias e ineficiências.
 
Nada é mais importante que a informação correta, tempestiva e de qualidade", concluiu Barbosa. Os softwares de auditoria são ferramentas auxiliares importantes, que podem ser acompanhadas até pelos clientes. Eles dão a possibilidade de acompanhar o que ocorre em todos os países, e os clientes também conseguem ter acesso aos processos.
 
"Antigamente, era muito comum que os clientes disponibilizassem informações fora do padrão que os auditores pediam. Agora, auditores e clientes podem acompanhar se tudo está como solicitado", diz.
 
Além dos softwares, outras tecnologias - como os drones, já usados para realizar inventários, e RPA (Recibo de Pagamento Autônomo) - podem ser aliadas na facilitação do serviço.
 
"No caso do RPA, por exemplo, que já usamos, trabalhos que podiam levar dias para serem feitos são feitos em até dois minutos por um robô que cruza os dados", explica o sócio da EY.
 
As tecnologias já são uma realidade e evoluem em ritmo acelerado. "O desafio é ter pessoas treinadas para utilizar os dados e trabalhar com eles como um todo, e não apenas com amostras."
 
Hoje, as firmas de auditoria contratam pessoas de diferentes áreas de especialização para dar conta de todos os procedimentos. Em um futuro próximo, os profissionais terão de estar preparados para lidar com esses procedimentos.
 
"Todos terão de saber trabalhar nesse ambiente tecnológico, se não vão desaparecer", previu Camargo. Pequenas e médias firmas encaram mercado Pachikoski destaca importância do ambiente tecnológico.
 
Tendo de concorrer em um mercado dominado por quatro grandes empresas - as chamadas Big Four, as Firmas de Auditoria de Pequeno e Médio Porte (Fapmp) também têm como principal dificuldade enfrentar o ambiente tecnológico.
 
O presidente da PP&C Auditores Independentes, Eduardo Camillo Pachikoski, avisa que dispor de ferramentas à altura do que o mercado exige requer investimentos significativos. Essas empresas têm de transpor tanto o obstáculo de contar com tecnologias de ponta quanto o de atrair pessoas qualificadas. "Para nós, não vai ser fácil.
 
As empresas grandes compartilham as tecnologias, têm contingente de pessoal muito maior e estão em diferentes jurisdições, o que as torna mais capacitadas para lidar com os temas de todo País", destaca Pachikoski. Em compensação, após a adequação e o investimento inicial, "as empresas que conseguirem sobreviver terão vantagem no mercado".
 
Para Pachikoski, as firmas de todos os tamanhos devem trabalhar juntas para quebrar o paradigma de que a profissão irá acabar. "O contato auditor-cliente nunca vai acabar", projeta.
 
Para continuarem competitivas, as firmas menores, acrescentou o professor ilustre de Sistemas de Informação Contábil na Rutgers Business School, Miklos Vasarhelyi, devem se tornar mais especializadas. "As grandes têm mais capacidade de investimento. As pequenas e médias, por outro lado, têm atributos relevantes, como proximidade", diz Vasarhelyi.


Fonte:  Jornal do Comércio do RS - 20/06/2018
 
 

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